terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

maiêutica particular

se em cada anseio 
a calma já me fosse dada
eu certamente não me desesperaria
assim como também não aprenderia.

se em cada desencontro
eu não fizesse minha busca particular
eu estaria a deriva,
buscando a mim em outras vidas. 

e se em cada passo não existisse
a busca de ser alguém melhor
eu estaria pisando em vão nesse solo fétido
fértil em falsos valores.

e se a cada "e se"
não existisse o cético que exacerba em mim
eu seria mais um anestesiado a rotina,
ligado a matrix.

domingo, 24 de fevereiro de 2019

a soma

semblante de um novo dia, um dia bom 
que seja como todos os outros 
mas que seja como a soma 
de todos os outros 
e que vivamos intensa e arduamente 
tudo que há de ser vivido

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

flores de sal

do jardim que a vida dá,
das flores que o jardim tem
e do perfume das rosas,
não há um dia sequer que eu não regue a tua saudade

nas flores de sal
e que cheiram a saudade
rego todas e não só com água...
flores de saudade.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

samsara fracionada

rudimentar, anestesiado
estendido, alongado
lento, prolongado
longevo, debilitado

há de ser o meio
o que me acopla o corpo
e faz da maturação
o que sucede o esforço

e a vida não cansa de ser maçante,
a cada chegada um novo caminho
a cada filme um livro esquecido
a cada despedida um novo amigo

vetusto, depauperado
moroso, demorado
acrescido, desdobrado
basilar, insensibilizado.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2018

rotas

no toque tímido que mapeia o rosto
e segue abaixo seu caminho
a alma salta do seu corpo
e o toque faz-se puro prazer

ao compasso das nossas bocas
e os espasmos que se findam nas coxas
o suspiro é libertador
em meio ao melhor dos pecados

no silêncio que sucede a líbido
os alicerces são nossos corpos entrelaçados
enquanto a hora passa
eu não me canso de ser só com você.

domingo, 23 de dezembro de 2018

soneto do marujo poeta

o poeta faz fotossíntese à luz da lua
trocando com as estrelas
enfermos por epifanias brandas
que dão aos olhos o reflexo da noite.

o poeta salga no mar o corpo
como quem limpa a alma
em mergulhos catárticos
onde se afogar é suspiro colossal

o poeta se encontra ao se perder
nas linhas nuas do teu corpo
onde desaguam oceanos de prazer

o poeta é poeta ao ser,
ao escrever o que sente e vê
sem ter medo de viver ou sofrer.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2018

Autoperdão

O peso da culpa
Da embriaguez nua
De atitudes cruas
Mal vistas a sós.

Com a visão da vítima
Sobre o medo da crítica
Que não perdoou a dívida
Que deve a ti mesmo
Pelo próprio algoz.

Com o destino jogado
Sem nem um centavo
Sentia por todos
Amores aos lados.

Sequer um troco
Recebeu um pedaço
De amores trocados
Por sentimentos culpados.